O intimismo de Inês Pedrosa


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Já indiquei a portuguesa Inês Pedrosa a muitos amigos, almas perdidas em lirismo que adoram ler sobre paixões insuperáveis e amores sofridos. O meu livro preferido da escritora é o romance Nas tuas mãos, que tem uma estrutura narrativa bastante peculiar. Três gerações de mulheres de uma mesma família falam sobre o amor: Jenny, a avó, deixa um diário; Camila, a mãe, um álbum de fotografias e Natália, a neta, uma coletânea de cartas. O livro é muito tocante e mostra como cada um de nós desenvolve um jeito muito íntimo de se relacionar com a paixão e com as desilusões da vida. Era um pouco difícil encontrar os romances da Inês Pedrosa nas livrarias, por conta da distribuição ruim da editora anterior. Há alguns anos ela está sendo publicada no Brasil pela Alfaguara, uma editora fantástica: livros bem editados, não tão caros e fáceis de achar! ;)

 





“Pareciam feitos um para o outro, tu e o Pedro. Um piano e a sua partitura. Tu gostarias de ser a música, mas eras forçado, pelo próprio excesso da sua paixão, a permanecer instrumento de ressonância dele. Creio que foi por amor de ti que o Pedro abafou o talento que tinha. Vários talentos, de resto; pintava o que queria, escrevia poderosamente, e tinha uma esplêndida voz de barítono. Mas nada disso se comparava, para ele, à perfeição compacta dos teus sentimentos. Ele queria amar-te com a obsessiva exactidão com que tu o amavas, e esse permanente hiato de desejos impossíveis adejava entre os dois como um sol privativo.”

Voz de Fada: Lisa Hannigan


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No meio do furacão, um instante de paz: a lembrança do balanço doce de um mar sem ondas. Minha ausência tem prazo certo.


Um instante de beleza pura: Swan Lake


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Uma memória de mar


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Se fosse necessário guardar o dia com uma memória, seria um gosto salgado na pele, de uma maresia fina que encobre todas as coisas do mar. Hoje foi um dia muito feliz. Um dia que começou na praia, com pouco sol, um céu meio encoberto, acinzentado, as cores menos vivas. Foi um dia para enfrentar alguns medos primitivos e irracionais ao entrar na água e sentir o pé afundar na areia molhada, uma impressão tátil e desagradável, sob o verde escuro aquoso que sempre me remeteu a mistérios insondáveis, marítimos, assustadores. Mas como foi boa a sensação de estar à deriva, flutuando num caiaque tão frágil quanto leve, que parece se conciliar com a profundeza da água num flutuar permanente, e que vai de um lado ao outro ao sabor da força do braço! Observar a orla de dentro d’água, pensar como todas as nossas angústias se destinam a questões pequenas, mutáveis, efêmeras, que é possível ter um instante de beleza gratuito, sem significados ocultos, um instante que é belo em si mesmo. E esse dia que começou na água também terminou em mar, com um pôr-do-sol feito de azuis, lilases e cinzas, um céu mexido pelas nuvens, um céu que também estava na areia molhada da praia, num reflexo que multiplicava as nuances de cor. E você pára, sente a imensa beleza e a grandeza do mundo, suspira e pensa como aquele instante é perfeito e há tanto amor no seu coração que ele transborda e é todo plenitude. Deixo com vocês a foto desse fim de dia, tirada pela minha companheira fiel de caminhadas, conversas e passeios, Mariana, a quem agradeço por este dia tão feliz.


Para entender a vida: as lições de Manfredo Oliveira


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Não há como ter uma vida construída com base na razão sem a filosofia. O sentido da vida, do amor, do bem e do justo são questões que estão presentes nos momentos mais importantes da nossa existência, quando nos tornamos quem verdadeiramente somos. Apesar de nosso blog ser sobre literatura, aproveito para compartilhar com vocês uma entrevista publicada no jornal O Povo, bastante esclarecedora, com um dos maiores professores de filosofia do Ceará e do Brasil, o padre Manfredo Oliveira, com quem dialogo quase diariamente no silêncio do meu gabinete, por meio da leitura de seus livros. Tenho gratidão e uma grande admiração intelectual pelo professor, não apenas pelo seu conhecimento sobre o saber filosófico, mas, sobretudo, pela sua didática, pela capacidade de nos fazer entender questões bastante complexas.



Quando estava no mestrado em Direito na UFC, pedi ao professor, que leciona na pós-graduação em Filosofia da mesma universidade, para assistir suas aulas sobre filosofia prática como ouvinte. Na época, precisava esclarecer e sistematizar algumas noções da filosofia moral em Kant. Ele, muito gentilmente, disse que não havia qualquer problema e me recebeu sem alarde. Ainda lembro claramente desse primeiro dia de contato com o professor de carne e osso: ele simples, num púlpito de madeira bastante clerical, ao lado, uma pequena caixa de som e um microfone de apoio (para forçar menos a voz); na sala de aula, umas quinze almas meio perdidas e interrogantes. Foram as três horas mais esclarecedoras dos últimos anos. Existe um Habermas antes e outro depois do professor Manfredo, existe um Wittgenstein com o professor Manfredo e outro sem ele, de modo que todos podem crescer um pouco a leitura dessa entrevista, na qual o professor ressalta a importância de se resgatar a reflexão ética.


Para quem quiser ler os escritos do professor, ele é publicado pela editora Vozes, pela editora Loyola e pela editora Paulus (nada que um passeio pela Praça do Ferreira não resolva, com a parada obrigatória no pastel do Leão do Sul). Algumas obras:

Reviravolta Linguístico-Pragmática, 1996, 3ª edição
Filosofia na Crise da Modernidade, 1993, 3ª edição
Ética e Sociabilidade, 1993
Ética, direito e democracia, 2010

Vivendo à beira: Clarice Lispector


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A Clarice Lispector não está entre as escritoras que leio com mais frequência. Apesar disso, todos nós temos nossos dias de Clarice, que escreve sobre o íntimo feminino como ninguém. Hoje, enquanto pensava no que postar, olhando as prateleiras, as lombadas dos livros, pensando nas leituras passadas, meu olhar encontrou o dela no seu Água Viva e eu pensei que esse é o texto perfeito para o que eu estou sentindo hoje: um turbilhão de emoções nada claras. Li esse livro há muitos e muitos anos (a inscrição do meu nome na contracapa data de 2001), mas lembro que foi uma leitura tocante, a ponto das páginas estarem cheias de rabiscos de marca-texto. O parágrafo que vai ao final do post, em especial, nunca me saiu da cabeça. Para os que gostam da escritora, é uma boa indicação. Uma leitura desorganizada, que não é exatamente um romance (não cabe qualquer categorização), mas não deixa de ser uma boa leitura. Bom fim de semana, amigos.





Também tenho que te escrever porque tua seara é a das palavras discursivas e não o direto de minha pintura. Sei que são primárias as minhas frases, escrevo com amor demais por elas e esse amor supre as faltas, mas o amor demais prejudica os trabalhos. Este não é um livro porque não é assim que se escreve. O que escrevo é só um clímax? Meus dias são um só clíma: vivo à beira.” (Clarice Lispector, Água Viva, Rocco, 1998)

Iemanjá e seus símbolos


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No dia 2 de fevereiro acontece uma tradicional festa popular em Salvador: a Festa de Iemanjá, a Rainha do Mar. A entidade do Candomblé é representada pela figura arquetípica da sereia, uma mulher de longos cabelos que habita o reino das águas. A origem mitológica do orixá representado por Iemanjá é uma pequena nação africana, para qual representava, no dizer de João do Carmo, “o leito primordial, de onde nassceram todos os seres vivos”. No começo de fevereiro, num dos símbolos do sincretismo religioso no Brasil, cristãos e pagãos lotam as praias da baía de todos os santos para lançar suas oferendas ao mar, esperando que a mãe das águas atenda aos pedidos de seus filhos. Reconhecida como divindade maternal e protetora, senhora da fartura e da abundância, acredita-se que, ao agradar a Iemanjá, a senhora das águas se sinta mais inclinada a conceder a graça da vida e de seus prazeres aos seus filhos. Com o mesmo espírito de quem joga na Mega Sena, vamos hoje lançar mentalmente nossos barquinhos para Iemanjá, repleto com os nossos sonhos mais inconfessáveis?
 
 
A obra é do maravilhoso artista argentino Hector Carybé.

Update: por uma questão de rigor, atualizamos a informação, já que as festividades de Iemanjá ocorrem em 2 de fevereiro e não de janeiro! A tradicional festa do começo de janeiro é, na verdade, a procissão de Bom Jesus dos Navegantes. (: