Reflexões de Sílvia: Erico Verissimo


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O trecho abaixo, de autoria de Erico Verissimo, compõe a saga O Tempo e o Vento, romance épico dividido em três partes: O Continente, O Retrato e o Arquipélago, cada qual composta por dois volumes. A saga reúne personagens míticos da literatura brasileira, como o capitão Rodrigo Cambará. Para os que não têm fôlego de assumir a leitura dos seis volumes, a Cia das Letras editou partes da saga em livros autônomos, que podem ser lidos de forma independente sem prejuízo da compreensão de seu contexto. Decidi trazer hoje um trecho Do Diário de Sílvia, integrante da saga, porque as palavras da personagem ressoam bastante no meu próprio modo de ver o mundo.




“Eu gostaria de compreender melhor as outras pessoas. Seria um modo indireto de me compreender a mim mesma. Gosto de gente. Desejo que os outros gostem de mim. A minha vida não teria sido, toda ela, uma busca de amor? Quando penso nos dias da infância, me vejo uma menininha de pernas finas a caminhar pelas salas do Sobrado atrás de alguém, pedinchando que me aceitassem... Se havia coisa que eu temia era não ser querida. Às vezes me envergonho um pouco dessa atitude canina: o vira-lata em busca dum amo.” (VERISSIMO, Erico. Do Diário de Sílvia, Cia das Letras, 2008, pg. 38)

A Teresa das Paixões: Manuel Bandeira


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O poeta Manuel Bandeira, nascido em 1886 em Recife, é um dos modernistas por excelência da literatura brasileira. Sua linguagem é leve, cotidiana, da cidade. Seu lirismo vem acompanhado de uma melancolia que cativa as tristezas da gente. O poema que trago hoje, chamado Teresa, nos fala sobre a inexplicável paixão que surge por quem a gente nunca imaginou. O poema pode ser encontrado na obra Estrela da Vida Inteira (Editora Nova Fronteira, 1993, pg. 136). Boa segunda-feira!






Teresa

Manuel Bandeira



A primeira vez que vi Teresa

Achei que ela tinha pernas estúpidas

Achei também que a cara parecia uma perna



Quando vi Teresa de novo

Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo

(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

                                                                                                                    
 Da terceira vez não vi mais nada

Os céus se misturaram com a terra

E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

Erotismo Dominical: Drummond


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Sob o chuveiro amar

Carlos Drummond de Andrade



Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,

ou na banheira amar, de água vestidos,

amor escorregante, foge, prende-se,

torna a fugir, água nos olhos, bocas,

dança, navegação, mergulho, chuva,

essa espuma nos ventres, a brancura

triangular do sexo – é água, esperma,

é amor se esvaindo, ou nos tornamos fonte?



(In: O Amor Natural, Editora Record, Rio de Janeiro, 2011, pg. 43)

Sobre o Amor e a Descoberta: Franzen


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A Feira Literária de Paraty, a FLIP, está acontecendo desde quarta e, aproveitando a desculpa do evento, que tem Carlos Drummond de Andrade como homenageado de 2012, trouxe as palavras sobre o amor e a dor de um dos convidados deste ano, o escritor americano Jonathan Franzen, , publicadas no texto A dor não nos matará, da coletânea de ensaios Como ficar sozinho (Cia das Letras, 2012).




 “Quando ficamos trancados em nossos quartos, bufando, caçoando ou nos sentindo indiferentes, como fiz durante tantos anos, o mundo e os seus problemas parecem desafios impossíveis. Mas quando saímos às ruas e temos relacionamentos reais com seres reais, ou mesmo animais reais, há o perigo bastante real de amarmos alguns deles. E então quem saberá dizer que rumo a vida tomará?”

Crônica de Quinta-Feira


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 Li em algum desses sites de notícias, e não sei até que ponto procede a informação, que alguém pode ser considerado jovem, para fins de contagem oficial, até os 28 anos. Resta-me, portanto, um ano e meio de juventude, quando passarei a integrar a estatística um pouco triste, mas muito digna, dos não-jovens. A ideia de não ser mais jovem me pegou de surpresa, muito embora já tenha, talvez, perdido o viço há anos. Por mais cliché que pareça, as pessoas estão sempre afirmando por aí que chegaram aos quarenta com a cabeça dos trinta e que, depois de certo tempo, não há mais concordância entre a idade que achamos ter àquela que os outros nos atribuem.



 Sinto-me perseguida, diariamente – mesmo no período de férias, o que é uma lástima – por uma sensação inquietante de que o tempo está passando, inexoravelmente, e estou ficando, ficando, ficando, até que não adiantará mais me preocupar. Será isso a perda da juventude? Alguns dirão que a geração dos jovens de hoje é vítima de uma corrida absurda por resultados – é preciso estar resolvido, bem-sucedido, formado e experiente já aos 25 – outros dirão que os minutos encurtaram-se, os segundos são unicamente sopros, e que os relógios já não têm a preguiça dos tempos em que era preciso esperar alguns dias pelas respostas de nossas cartas.

Nesse ponto não é importante saber quem tem razão. Só me preocupa a certeza de que chegará um tempo em que os planos não poderão mais ter a duração de décadas, mas de anos e que, talvez, o reflexo que tenhamos deixado no caminho seja pobre, rápido e aflito demais para que tenhamos orgulho do que fomos. Creio que é preciso perder mais o tempo.  Talvez isso nos baste.

Bagunça Literária


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Queridos amigos, a casa do Ler para Contar está no meio de uma obra importante: as prateleiras e as bancadas de estudo estão sendo, enfim, preparadas para acomodar os livros com a ordem que este blog merece. Estou já muito contente com a perspectiva de ter um espaço confortável, claro e organizado para trabalhar e arrumar os títulos. Nos próximos dias, o acesso aos livros ficará um pouco prejudicado, além do cansaço que todo esse mexe-mexe causa, mas tentaremos trazer, a cada noite, um belo poema, obra de arte ou música para aquietar os nossos corações solitários. Um beijo em todos.





Ferreira Gullar



Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

Tudo é Mar: Cecília Meireles


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Beira-Mar

Cecília Meireles



Sou moradora das areias,

de altas espumas: os navios

passam pelas minhas janelas

como o sangue nas minhas veias,

como os peixinhos nos rios...



Não têm e têm velas;

e o mar tem e não tem sereias;

e eu navego e estou parada,

vejo mundos e estou cega,

porque isto é mal de família,

ser de areia, de água, de ilha...

E até sem barco navega

quem para o mar foi fadada.



Deus de proteja, Cecília,

que tudo é mar – e mais nada.