on Belas Artes, Leitura
Ferreira
Gullar, além de poeta, é um grande crítico de arte e tem escritos muito lúcidos
sobre estética que valem a leitura atenta. Gullar elucida questões como
vanguarda, arte-conceitual e todas as falácias relacionadas ao emprego desses
termos, ao nos alertar que existe, sim, o belo e o seu oposto em arte, e que nem toda
crítica ao novo é necessariamente “passadista”. Para quem se interessar, é
muito boa a leitura do livro de Gullar chamado Sobre arte, sobre poesia (Uma luz no chão), publicado pela José
Olympio. O texto abaixo me fez lembrar um autoproclamado poeta cearense que,
certa vez, num café cheio de ouvintes deslumbrados, apresentou uma ideia
brilhante por ele concebida: um artigo de uma revista literária que foi
apresentado em branco, com os seguintes dizeres “este espaço estava reservado
para fulano de tal, mas ele não apareceu”. Genial, não é? A literatura que é
não literatura.
“Como se pode concluir do que foi dito,
deu-se uma inversão de valores no âmbito da avaliação e mesmo da concepção
artística, já que a obra deixou de impor-se pelas qualidades estéticas, por sua
execução, por sua complexidade, pela adequação da forma e conteúdo, para valer
apenas pelo que trazia de “novo” e que, na maioria das vezes, limitava-se à
busca deliberada do extravagante e do diferente. Não é difícil adivinhar que
tal concepção conduziria fatalmente à desintegração das linguagens artísticas e
a um vale-tudo que eliminava qualquer avaliação objetiva”. (GULLAR,
F. Sobre arte, sobre poesia (uma luz no
chão), José Olympio, pg. 14)
Já
falei sobre a escritora carioca Livia Garcia-Roza em outro post e aproveito o dia
de hoje para apresentar mais um romance de sua autoria, chamado Milamor. As personagens mais marcantes
da obra de Livia fazem parte de um universo profundamente feminino, urbano,
lírico e muito sofrido. No romance Milamor, temos a história de Maria, uma mulher
madura de filhos já adultos, viúva, que redescobre o amor e a paixão. O cotidiano tedioso de Maria é
ricamente descrito a partir da perspectiva da personagem: o ócio, a falta de
energia, a vivência do passado como maior passatempo. Acompanhamos a
transformação emocional de Maria com a chegada de Alencar, as palpitações, a
ansiedade, o doce gosto das fantasias. Um romance muito delicado que vale a
leitura. As mulheres vão se reconhecer na escrita de Livia Garcia-Roza, os
homens podem aprender um pouco sobre universo afetivo do sexo oposto. Boa
quarta!
“Moramos bem, minha filha e eu, num bom
apartamento, espaçoso, claro e vazio, porque ela não gosta de móveis. Precisa
se locomover – nos poucos momentos em que passa em casa –, sem nada ao redor,
na amplidão. Na verdade, aqui no alto, moramos eu e as samambaias, com quem
troco ideias diárias. E recebemos duas visitas, a de Maria Inês e da diarista.
Sim, porque minha filha trabalha o dia inteiro e quando termina o expediente
emenda a noite com os colegas. Conversar comigo é raro. Quando começo a falar –
se não for para me queixar de alguma dor –, ela se desinteressa,
instantaneamente. Está sempre apressada, até o café da manhã ela toma em pé, ao
lado da porta de entrada. Sábado e domingo passa o tempo todo no computador, ou
no telefone. O que me vale é ter cultivado amizades ao longo da vida.” (Editora Record, 2008, pg. 8)
Terça-feira
pode ser um dia para delicadezas literárias. Nada melhor que uma crônica do
Rubem Braga, chamada O Conde e o
Passarinho, publicada na obra homônima.
“Devo confessar preliminarmente que, entre
um conde e um passarinho, prefiro um passarinho. Torço pelo passarinho. Não é
por nada. Nem sei mesmo explicar essa preferência. Afinal de contas, um
passarinho canta e voa. O conde não sabe gorjear nem voar. O conde gorjeia com
apitos de usinas, barulheiras enormes, de fábricas espalhadas pelo Brasil,
vozes dos operários, dos teares, das máquinas de aço e de carne que trabalham
para o conde. O conde gorjeia com o dinheiro que entra e sai de seus cofres, o
conde é um industrial, e o conde é conde porque é industrial. O passarinho não
é industrial, não é conde, não tem fábricas. Tem um ninho, sabe cantar, sabe
voar, é apenas um passarinho e isso é gentil, ser um passarinho”.
on Belas Artes
Aproveito a preguicinha do domingo para indicar uma
interessante entrevista como o francês Roger Chartier sobre o hábito da leitura.
Neste link.
on Japão, Poesia Musical
A ópera Madama Butterfly foi criada pelo italiano Giacomo Puccini, sendo interpretada pela primeira vez no começo do século XX, em Milão. A ópera tem como enredo a tragédia de Butterfly, uma gueixa que se apaixona por um oficial americano, Benjamin Pinkerton. O americano resolve tomar Butterfly como esposa. Leviano, interessado na jovem gueixa apenas para aplacar seu desejo, Pinketon não tem planos de permanecer no Japão por muito tempo. Após três anos de abandono, o oficial volta a dar notícias, quando a terrível tragédia se abate sobre a pobre Cio-Cio-San. A ópera é organizada em três atos e assisti ao espetáculo preparado pela Royal Opera House, exibido em 3D pela UCI, que tem a magnífica Liping Zhang como intérprete de Butterfly. Uma história para chorar até as entranhas de tanta beleza.
Para
descobrir mais: www.madambutterfly3d.com






