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A Sede do Pecado: Paulo Mendes Campos


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“Olhe, irmão, o que me interessa nas coisas é o que elas poderiam ser. O que me atrai nas criaturas é a disponibilidade, essa linda e trágica espera incessante, esse constante vigiar das tentações, como se torcêssemos pela circunstância, pela pessoa, pelo demônio que viesse (que sempre parece vir) nos arrancar os trilhos para as cambalhotas da vida. Você há de ter observado, meu velho, um rosto, um olhar disciplinado e intimidade por séculos de civilização burguesa, você há de ter notado que nesses rostos costuma brilhar de vez em quando um anseio esquisito, uma luz que é bem uma sede de pecado, de desconhecido, de desastre. Instantes em que se revela em nós o pagão – o selvagem, o homem que deseja perder a própria vida e não ganhar. Vinte séculos de cristianismo não extinguiram em nós o gosto ácido do desprendimento, o amor impensado pelas coisas do mundo: sol, frutos, fêmea subjugada sobre  a relva. Bem, irmão, esses momentos são tudo pra mim”. (Trecho da carta de Paulo Mendes Campos a Otto Lara Resende, publicada pelo Instituto Moreira Sales, 2012, pg. 12, Um Coração em Agosto)


Amizade de Letras: Fernando e Clarice


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A dica de hoje é para quem gosta de ler cartas. Cartas trocadas entre escritores. Fernando Sabino e Clarice Lispector foram grandes amigos e fizeram parte de uma geração que se espalhou mundo afora, gerando uma enxurrada de cartas íntimas, de amizade, de dúvida, que são um deleite de ler. A Editora Record publicou a obra Cartas perto do coração, com uma coletânea de cartas trocadas entre Fernando e Clarice. É como estar conversando com os escritores, compreendendo seus desafios, suas dificuldades, percebendo o homem e a mulher sob os artistas. Eu suspeito (e descobri que o professor Raul, que também leu o livro, ficou com a mesma impressão) que Clarice e Fernando tinham uma paixonite escondida. O que importa, efetivamente, é a leitura, a boa leitura das palavras doces e amistosas de cada um deles. Bom sábado!





“Por ora preciso que você me escreva, preciso que você mande notícias suas, que você diga que não ficou zangada comigo por causa do meu silêncio e conte bastante coisas daí. Para que eu saiba afinal se você continua vivendo, se continuamos vivendo, porque viver é de graça, de favor, ninguém pediu licença para nascer nem pagou entrada no mundo, e já que não temos a quem agradecer tanta gentileza, agradeçamos mutuamente. Muito obrigado, Clarice”.

Angústia da Juventude: Lição de Hélio Pellegrino


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A juventude não é uma entidade material, não se revela nos traços, no viço da pele e na cor dos cabelos, mas na amplitude do olhar que deitamos ao mundo. Aos meus amigos que sofrem por serem velhos demais ou jovens Peter-pans, deixo a mensagem de Hélio Pellegrino a Fernando Sabino. Eis uma das lições que não consegui aprender com meu pai: permanecer sempre jovem, em qualquer circunstância.

"O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo em sua liberrérima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece seu nome."  
PELLEGRINO, Hélio.